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Quadro: Visage of War
Artista: Salvador Dalí
DELÍRIOS
Por Denise Jorge
Hoje, não sei por qual motivo, acordei assutada. Minhas duas horas de sono mal dormidas, fizeram despertar a minha consciência que há tempos não me vinha a criticar. E o tempo, com seu som perturbador, apressava-me para sair logo de casa, tinha um compromisso. Caminhando pela rua, fumando um cigarro, cada trago era um minuto da minha vida perdido. E foi alí, parada no ponto de ônibus, que ela me veio atormentar. Eu olhava para as pessoas que passavam a minha frente, e em seus rostos via o semblante de minha morte. Eram caveiras andando, olhares sinistros querendo dizer que logo me viriam buscar. E a maldita falava ao meu ouvido com tom de irônia, de repugnância: "muda de vida, você não vai muito longe assim... você é repleta de vícios"... e aquela voz se tornou múltipla, agora eram diversas a gritar essas frases terríveis. Minha cabeça começou a doer, queria fugir, mas tudo aquilo estava dentro de mim, corroendo-me como os vermes que comem a carne podre de um defunto. Será que estou morta? Sou como um morto-vivo, ou melhor, vivo-morto, pois a corpo ainda treme, a alma que não respira mais. Esta falsa sensação de felicidade, escondia o mal que ainda estava por vir: minha infinda depressão alimentada pela minha nostalgia. Tempos de aurora, em que eu era feliz, queria regressar ou parar em você. Mas o tempo não pára, e parece a cada dia estar mais rápido. Mudar ou morrer? Sofrer para crescer. Ai, vida sofrida, injusta. Sou podre, mas não merecedora de tantos monstros. O que fazer para que me deixe? Isso são delírios ou pura realidade? Quero morrer sem saber.
Texto antigo escrito num ônibus à caminho da Universidade.