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Artista: Botero
Quadro: Mujer Llorando

 

UM BRINDE A BACO
Por Deni

 

 

                      Antes já a imaginava em teu mundo, cuidando da casa, mimando os filhos, te olhando na sombra de um entardecer enquanto fumava um cigarro, se deitando em teu peito enquanto vêem TV. E muitas lembranças, olhares que dizem sem dizer, uma mão cúmplice que te acalma, risos, vinhos, amor. Aquele rock de fundo da época de namoro, e as lembranças, o amor apagado, a tristeza e a esperança.

 

                   Você saindo de casa sem saber se voltará, mas as imagens de um passado rodando como um disco de vinil, como a roda do teu carro. O velho e o novo, a segurança, a certeza de um amor que existiu, e a juventude que te atormenta. Um calor que não sentia mais, e que agora está em tuas mãos, em tua pele te aquecendo, despejando vinte anos de saliva em tua boca, te desejando como o passado talvez não mais o deseje. O corpo tremendo, o medo, todas essas imagens se confundem, dois filmes sobrepostos de modo que se perde o controle, uma aflição no peito, um cigarro, e mais imagens e sensações.

 

                   E você retorna ao passado-presente com o cheiro do que poderia ser presente-futuro. E a recorda, sente a tua juventude no turbilhão de teus hormônios que eclodem a cada mirada, a cada sonho, a cada fechada de olhos para lembrar seu sorriso, de seu cabelo comprido balançando ao ritmo cubano, da pele branca e agora queimada de sol. O desejo e a dor, a impossibilidade de tocá-la  mais uma vez. O passado te prendendo, a segurança, a estabilidade, tudo te mantendo no velho presente.

 

                   Um adeus sem palavras, o peito que arde de saudade, o corpo tremendo suplicando pelo dela, mas não, melhor a dor, melhor lhe ter as lágrimas a fazer passá-la por isso, a deixá-la angustiada a cada telefonema que não dou, a cada mentira que invento justificando minha fuga, o meu medo de querê-la mais.

 

                   E como dói imaginá-la assim, triste, chorando, descontando seu rancor em outros braços, engolindo seu pranto porque não quer se render. E a saudade, o desejo que não diminui, e as lembranças. Os filmes se bifurcando, deixando lentamente de serem congruentes, a imaginação tomando conta dos momentos em que estávamos juntos, da cerveja na Serra substituída por um ônibus lotado. A vontade de buscar, de voltar, de sentir mais uma vez sua respiração forte, seu corpo febril numa noite de amor. Tudo faz falta, até seu ciúmes, suas provocações, essa competição inconsciente que existia de quem pode mais, quem ama mais, quem magoa mais.

 

                   Talvez você tenha ganho, talvez o passado te disfarce o dano no presente, diminua a tua dor, te faça cegamente acreditar que não te tocou, que logo esquecerá, que já esqueceu ao ver aquela garota de mesma idade, a mesma idade que te remete a ela, a sua risada, ao seu perfume inesquecível. E você fuma a mesma marca de cigarros que a dela, e ela tem os mesmos gostos que o teu e que do teu passado, mas agora os filmes já estão quase paralelos e você quer apagar o mais recente, todas as músicas, todo esse presente que também já é passado.

 

                   Os amigos nos apóiam, dizem o que nossa razão quer ouvir, e com o tempo a confusão, a paixão vai sendo abafada. Não se pode mais, não se controla mais, e ainda dói. E a conveniência não permite que se admita, mas sangra, espalha como esse vinho que acabo de derramar sob teus pés que não vejo, mas que imagino agora caminhando pela casa, e ela contigo, os mesmos pratos, os mesmos talheres, a mesma gritaria das crianças, mas com algo que ninguém pode ver, que ninguém pode sentir a não ser você, a não ser o vinho que toma amargamente, como se ainda o sentisse umedecendo teus pés.



- Postado por: Deni às 00h25
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